A fotografia é mobilizada de várias maneiras desde seu surgimento no século XIX. Quando utilizada por instituições, pelo Estado, ou por indivíduos interessados numa reverberação social de seu conteúdo, ela tende a assumir um caráter fortemente político. Como marco teórico, o termo fotodocumentarismo adquiriu significados diferentes desde o começo do século XX; situar as forças políticas, os interesses artísticos e debates de pesquisadores dedicados ao assunto é importante quando analisamos imagens desse tipo.

Nesta seara, um tema nos interessa especificamente: a representação (TAGG, 2005) do proletariado (MARX, 1848), produzidas por autores de diferentes perfis estéticos e intenções. Como temática, a questão dos trabalhadores já foi abordada por importantes nomes como Jacob Riis (1849- 1914) e Lewis Hine (1874-1940), porém alguns questionamentos nos conduzem à escolha de outros autores que se dedicaram ao assunto: Que traços em comum podemos estabelecer entre diferentes representações desses sujeitos? Como as fotos são elaboradas tomando como background paradigmas históricos e movimentos do próprio debate sobre a fotografia documental? Quais as características podem configuram a construção de uma imagem dos trabalhadores através do tempo?

Algumas questões da Modernidade – o arquivamento, a fotografia como linguagem universal, artefato de identificação e forma de apreensão e congelamento do tempo, a fisionomia – associamos às imagens de trabalhadores do alemão August Sander (1876-1964), contidas em “Homens do século XX”, abordando-as como exemplares de uma “estética oitocentista”. Buscamos associar tais ideias às observações de Olivier Lugon (2010) sobre estilo documental, como marco teórico aplicado especificamente à obra de Sander.

Numa aproximação com o fotojornalismo, debates sobre autoria e caráter de denúncia – este último demarcado no conceito de documentarismo social de (SOUSA, 1998) – analisamos o material do brasileiro Sebastião Salgado (1944- ), intitulado “Trabalhadores: uma arqueologia da era industrial” (1993), que presta uma homenagem aos “heróis da Revolução Industrial”, que de acordo com o fotógrafo se encerrava enquanto ciclo produtivo em meados de 1980. Sua documentação apresenta uma visão possível a respeito dos trabalhadores do século XX.

Por fim, duas referências nos permitem pensar sobre os trabalhadores do século XXI: o ensaio “Life in IPhone City”(2012-2013), do francês Gilles Sabrié (1964- ), e o projeto “From there to here”(2010- ) do italiano Giulio Piscitelli (1981- ). Ambas as documentações enfocam o proletariado contemporâneo em dimensões que fogem à chave exclusiva de uma abordagem desses sujeitos apenas como participantes do sistema de produção econômico. Questões geopolíticas, humanitárias, fluxos migratórios, hábitos de lazer e consumo, choques culturais – e a centralidade do tema do trabalho como elemento norteador dos sujeitos em diferentes regiões do mundo – são abordadas em fotografias de intimidade, convivência e circulação em espaços públicos, deslocamentos entre continentes, relações sociais diversas e esforços de sobrevivência. Essas imagens nos levam a pensar uma nova representação do proletariado, associada à complexidade e singularidade dos indivíduos contemporâneos e de suas trocas e interações sociais.

Ludimilla Carvalho Wanderlei: doutoranda em Comunicação – estudos de fotografia pelo PPGCOM – UFPE, & José Afonso da Silva Junior: Professor e Pesquisador do PPGCOM – UFPE, Brasil.