Entre 2005 e 2007, realizei um ensaio fotográfico com os índios Tremembé, um povo nativo da costa norte brasileira. As imagens em preto&branco e cromo aproximavam-se mais da arte contemporânea do que do documentarismo tradicional. Em vez de publicação ou exposição, os negativos foram digitalizados e o trabalho rendeu uma instalação de vídeo em museu de arte, uma monografia em antropologia e um filme documentário. Intitulado “Espelho Nativo”, busco neste artigo uma reflexão sobre o método compartilhado de produção imagética em dupla relação com o movimento social e com a arte, a partir de uma experiência de dez anos.

O ensaio fotográfico foi pactuado com os Tremembé sob forma de produção dialógica. O método compartilhado de fabulação de imagens entre o fotógrafo e a comunidade étnica pôde gerar umentrelocal (Bhabha 1998) em que, ao final do segundo ano de ações, extrapolou-se a proposta inicial de documentação: as pesquisas iconográfica e bibliográfica que precederam o campo, a etnografia e etnologia dos Tremembé, somadas ao registro fotográfico e à política de devolução de imagens e apresentação de resultados e informações, fez encontro no retorno da fala dos índios, incorporando suas pautas e demandas. Da fotografia se expandiu a perspectiva para o audiovisual, realizando-se uma instalação com as fotografias e, em 2009, um filme documentário. Exibido em cadeia nacional de televisão para mais de cinco milhões de espectadores, a etnia – e seus problemas – tiveram outra visibilidade, colocando-a em outros mapas sociais. Eis que em 2011 os Tremembé encamparam um projeto ousado e inovador: o Museu do Índio Tremembé, qual fui convidado a colaborar e exercer a assessoria técnica do projeto. Este ano (2016), após um longo processo de captação de recursos, a estrutura inicial será construída.

Brasil, a vertente social precursora estava imanente no naturalismo dos “pintores-etnógrafos” (Kate 1910 apud Porto Alegre 1989), com vários fotógrafos que seguiram a escola: já na década de 1850, o Museu do Homem de Paris contava com uma enorme coleção de imagens de ameríndios (Kossoy 2002; De Tacca 2011). O olhar estrangeiro, ansioso pelo exótico, também encobria suas relações de poder e, mais, uma alteridade eurocêntrica que sequer reconhecia os nativos como seres humanos. Por isso, aos índios, como aos condenados jurídicos (Tagg 1988), impunha-se uma representação externa e unilateral, forjada em uma racionalidade vertical, totalizante e controladora. Esta parece ser uma das críticas mais pertinentes e duradouras na questão da imagem indígena, que sob diversas roupagens, atravessa a modernidade da escravidão ao mundo pós-colonial.

Claudia Andujar, Maureen Bisilliat, Vincent Carelli, assim como Nair Benedicto e Rosa Gauditano são fotógrafos engajados na causa indígena desde a década de 1970, que romperam com a normatividade de regimes estéticos e políticos nas relações da partilha do sensível (Rancière 2005). A partir de então, brasileiros comuns como eu e também os próprios indígenas passaram a imprimir seus olhares, seja pelo viés da antropologia, da arte contemporânea ou da militância cultural. Ou, borrando fronteiras intercambiáveis, agenciando as três vertentes.

Philipi Bandeira, nascido em Brasília em 1982,  é professor, pesquisador e documentarista (fotógrafo, diretor, roteirista, montador). É mestrando em Comunicação Social (Universidade Federal de Pernambuco), com ênfase em cinema documentário, e bacharel em Ciências Sociais (Universidade Federal do Ceará), com ênfase em antropologia visual e etnologia. Tem experiência nas áreas de cinema e vídeo, fotografia, antropologia e culturas indígenas. Dirigiu Espelho Nativo (doc, 52’, 2009) e é autor de cinco ensaios fotográficos documentais sobre etnias indígenas brasileiras, entre a participação em documentários, filmes etnográficos, realizações coletivas e tutoria em curtas-metragens em projetos pedagógicos, compondo equipe em cerca de 20 filmes, entre outros trabalhos em artes integradas.

É pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (PPGCOM/UFPE), integrando a linha de pesquisa “Estética e Culturas da Imagem e Som”, sob orientação do Prof. PhD José Afonso Jr. Em sua graduação em Ciências Sociais, destacam-se a fundação, implantação e produções do Laboratório de Antropologia da Imagem – LAI/ UFC (2005-2008). Em sua trajetória acadêmica e docente, fez apresentações de trabalhos, participou de seminários e ministrou cursos em diversos eventos e universidades: SBPC, UFC, UFPE, UFBA, UFRB, UFMG, UERJ, Fundaj, Universidade de Estrasburgo (França), entre outras instituições privadas. É professor e colaborador da Escola de Audiovisual da Vila das Artes, em Fortaleza, tendo sido instrutor titular de fotografia do Senac (2008) e Coordenador de Audiovisual da Secretaria de Cultura de Fortaleza (2008).