A utilização da imagem como prática profissional do jornalismo advém sobretudo da capacidade que a imagem tem de ser simultaneamente informativa, epistémica e testemunhal. A investigação que aqui se apresenta visa mostrar como é que, após 48 anos de censura em Portugal, foram realizadas as primeiras narrativas imagéticas sobre um acontecimento como o 1º de Maio de 1974 e, consequentemente, quais as implicações politico-ideológicas que as imagens reflectem. Assim, a partir da análise da natureza documental das imagens, vamos procurar responder à nossa questão: como é que foi realizada a primeira narrativa fotojornalística do 1º de Maio de 1974?

O corpus empírico é, assim, produzido a partir do estudo da fotorreportagem publicada n’O Século Ilustrado, a 4 de Maio de 1974, sobre o 1º de Maio de 1974. O procedimento metodológico escolhido tem como base a metodologia desenvolvida por Roland Barthes em a Retórica da Imagem, onde se analisa o binómio texto/imagem. A análise deste binómio é necessária uma vez que o fotojornalismo não acontece sem uma ancoragem de texto que permita direccionar leituras, analisar, complementar, interpretar e sobretudo denotar e conotar as narrativas fotojornalísticas. Começaremos por uma breve contextualização do acontecimento, uma vez que a natureza da imagem/signo assim o exige, de forma a evitar leituras fora do contexto histórico-politico da altura. Será feita, num segundo momento, uma descrição das imagens e a identificação e análise dos diferentes tipos de mensagem que compõem a narrativa: a mensagem linguística – legendas, títulos e textos; e a mensagem icónica subdividida em signos figurativos/icónicos, e signos plásticos ligados à construção da imagem – cor, forma, composição, texturas, suporte, molduras, enquadramentos, ângulos, pontos de vista, iluminação, poses.

Esperamos encontrar uma narrativa liberta dos seus constrangimentos censórios quer ao nível da imagem, quer ao nível do texto. E, devido à data alusiva ser uma comemoração sobretudo das esquerdas, acreditamos que iremos encontrar uma narrativa com um cunho político e ideológico e, sobretudo, um forte cunho emotivo.

Palavras-chave: 1º de Maio de 1974, O Século Ilustrado, fotojornalismo, imagem, história, ideologia.

Ana Catarina Caldeira – aluna de doutoramento em Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.