O trabalho a ser apresentado foca-se nas relações entre fotografia e memória a partir da observação da instalação Identidad, realizada em Buenos Aires, em 1998. Nesta instalação, cujo intuito foi o de problematizar um evento fortemente traumático no país, três elementos se cruzam: retratos fotográficos, espelhos e pequenos textos.

Tendo padecido diante de uma ditadura militar feroz (1976-1983), a Argentina viu muitos de seus cidadãos desaparecerem sem deixar rastros. As marcas dessas desaparições são ainda hoje de extrema visibilidade no país. Associações como asMadres e as Abuelas de la Plaza de Mayo são vitais para manter presente e visível aquilo que os militares fizeram desaparecer. A instalação Identidad foi uma estratégia para trazer à luz um evento obscuro da era ditatorial: o roubo de filhos de prisioneiros políticos. Algumas crianças foram sequestradas junto de seus pais, e deles tiradas. No caso de prisioneiras grávidas, esperava-se em cativeiro o nascimento do filho, quando o tiravam da mãe – ela que seria em breve assassinada – para ser entregue a famílias de militares, crescendo sem conhecer a verdadeira identidade. Cerca de 500 crianças foram roubadas de suas famílias, e o trabalho das Abuelas é justamente o de procurar e restituir às famílias originais o ente familiar perdido. Elas são as próprias avós das crianças desaparecidas e, juntas, buscam bravamente, há décadas, indícios de seus netos. Hoje, com o trabalho delas, pouco mais de uma centena de netos foram devolvidos às verdadeiras famílias. A busca continua.

A instalação Identidad, idealizada pelo Centro Cultural Recoleta em parceria com asAbuelas, foi um desejo de tornar mais visível essa busca. Para tanto, foram convidados 13 artistas argentinos, que, juntos, produziram uma obra coletiva e única. A instalação expõe uma linha contínua na parede, na altura dos olhos, em que antigos retratos fotográficos de homens e mulheres se encontram e abrem espaço para um terceiro: o espelho. Os retratos pertencem aos desaparecidos e o espelho corresponde ao rosto perdido, o rosto do filho. Com o intuito explícito de reencontrar esse rosto, os retratos dos pais servem como medida de semelhança e parentesco, uma espécie de árvore genealógica visual. O espelho guarda a possibilidade latente de refletir o rosto do filho, também o nosso rosto, como se cada espectador pudesse ser, ele mesmo, a identidade perdida. Mas mesmo que não sejamos o desaparecido, somos parte da história, parte do dever de memória e, ao olharmos o nosso rosto, notamos que nossa presença é parte essencial dessa busca, uma busca política, amorosa e memorial. Se os velhos retratos nos afirmam o passado, o espelho evoca o presente, a imagem presente, seu rosto, e o dever social de jamais nos esquecermos. Para além das fotografias e do espelho, um pequeno texto narra as informações conhecidas daquela história particular, como detalhes da prisão, ou sobre o possível destino da criança.

A comunicação pretendida abordará o uso dessa instalação como estratégia produtora de sentidos memoriais, entre o afeto e a política, na tentativa de dar visibilidade àquilo que desapareceu.

Carolina Junqueira dos Santos: Pós-doutoranda no Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo / USP, com financiamento da FAPESP. Doutora em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais / UFMG.