Ana Mendieta foi uma artista visual cubana que viveu e trabalhou nos Estados Unidos entre as décadas de 60 e 80. Sua produção artística foi quase inteiramente baseada em performances corporais e composições com elementos da paisagem, que ela mesma denominou como earth-body sculptures. O uso da fotografia na mediação dos seus trabalhos é um aspecto também marcante, já que grande parte das performances de Mendieta era desempenhada exclusivamente para a câmera, sem a presença de público. A intensa ligação com a terra, expressa em sua arte, é decorrente da sua expatriação precoce – por questões políticas que afetavam sua família, Ana foi obrigada a deixar Cuba quando tinha apenas 12 anos. As temáticas relativas ao exílio e às reivindicações feitas pelo movimento feminista, com o qual veio a ter grande envolvimento, permearam fortemente a sua obra. Mendieta utilizou o próprio corpo como material artístico para questionar o estabelecimento de papéis sociais dentro das relações de poder e os apagamentos impostos pela normalização de uma identidade étnica e de gênero. Em suas estratégias de representação, o corpo feminino aparece em constante mutação ou desaparecimento pela ação da natureza. Este desaparecimento figura como uma metáfora da sua recusa em ser classificada dentro de um sistema fixo de identidades. O artigo proposto pretende investigar as formas pelas quais as questões de invisibilidade, recorrentes na produção artística de Mendieta, são abordadas em suas fotografias de performance, levando traços pessoais da artista (as violências sofridas como mulher e o distanciamento das suas raízes) a assumirem profundos significados políticos. Serão utilizados os conceitos de performance, como instrumento para transmissão de conhecimento e memória cultural, e de performatividade, como fator constitutivo das categorias de identidade, no intuito de problematizar os discursos de dominação assegurados pelo mapeamento dos sujeitos dentro de estruturas binárias. Para contextualizar a produção imagética da artista serão explorados os estudos que tratam da fotografia inserida no âmbito da arte contemporânea. Uma fotografia que transcende os limites de sua tradição documental e se funde com outras formas do fazer artístico, como a performance, na criação de ficções que geram novas possibilidades de significação para a crítica social. Aos conceitos abordados será articulada a análise de três importantes trabalhos de Mendieta: as séries fotográficas Glass on Body Imprints (1972), Facial Hair Transplant (1972) e Siluetas (1973-1981). Por meio dessas obras, a artista afirma sua liminaridade entre presente e ausente, feminino e masculino, nação e exílio, subvertendo as categorias de identidade e desafiando assim as estruturas de poder que legitimam sistemas de visibilidade e invisibilidade.

Olga da Costa Lima Wanderley: Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco – PPGCOM/UFPE. E-mail: contato@olgawanderley.com.