É muito controversa a aplicação do adjectivo esquerda ao regime republicano saído da Revolução de 5 de Outubro, porém as suas circunstâncias políticas levam-no a necessitar de utilizar a imagem, em especial a de imprensa de forma a ser demarcar dos monárquicos que combatia. O que se pretende é compreender em que aspectos essa demarcação se fazia. É a utilização da imagem para a propaganda que está em causa:

  • Progresso – O ideal do progresso tinha acolhimento generalizado. Na imagem isso era patente de formas variadas, nomeadamente pela fotografia de grandes obras e da velocidade. Da utilização pelos republicanos destas fotografias destaque para a radiografia da mão de Afonso Costa, sendo um processo com grandes vantagens na medicina e poucos anos de existência, destaca o empenho do regime republicano na mais recente tecnologia.
  • Anticlericalismo – Esta é uma das principais marcas do regime republicano e uma das principais clivagens que têm sido permanentes na sociedade portuguesa. No auge do considerar a antropometria como ciência a publicação das imagens da realização de medições antropométricas a frades jesuítas é um episódio importante na propaganda anticlerical republicana.
  • Modéstia – Por oposição ao fausto dos anos finais da monarquia o regime republicano exteriorizava uma austeridade pequeno burguesa. A reportagem com “Um dia na vida de Teófilo Braga” então 1º ministro mostra essa modéstia.
  • Ligação ao povo – Na luta contra a “Monarquia do Norte” soldados aparecem na capa da Ilustração Portuguesa ajudando camponesas a atravessar um curso de água, numa imagem bucólica que parece estranha sendo Benoliei o autor, mas que deve ser compreendida num contexto de demonstração de que o regime republicano tinha apoio popular para lá das grandes cidades.

Nestes quatro exemplos é patente uma questão ideológica fundamental, o anticlericalismo, um aspecto que não demarcava republicanos de monárquicos, o ideal de progresso e uma demarcação mais prática que ideológica, mas que não deixava de ser importante, especialmente tendo em conta as críticas ao fausto da família real, a demonstração de um modo de vida modesto. Finalmente, e talvez o mais importante é a tentativa de demonstrar a existência de um apoio popular que ultrapassa a cidade de Lisboa e os grandes centros, num momento em que a ameaça sobre o regime republicano era real.

Não havendo em Portugal  na viragem para o século XX, exemplos análogos à utilização militante da fotografia por Jacob Riis ou Lewis Hine, nomeadamente em causas sociais, estes são exemplos interessantes de como o recém implantado regime republicano utilizou a imagem. É uma utilização na luta política directa, e em factores de identificação com a população, na procura de uma legitimidade que se pretende que ultrapasse factores meramente políticos.

Nuno Pinheiro Researcher for CIES/IUL Works on photography as a subject and source to history. History PhD, author of four books and more than 30 journal articles and book chapters. Presented his work in conferences in Portugal; UK, Argentina and Neederlands.